Refletindo FHC

O efeito do que é dito depende de quem fala. Prova disto é a repercussão do recente artigo escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sob o título “O papel da oposição”, que mexeu com toda classe político do país. No artigo ele afirma que a função da oposição “é óbvio e quase ridículo de escrever, se oporem ao governo”, ou seja, criticar. Por que será que ele se achou na obrigação de falar esta obviedade? Talvez porque, hoje, a oposição esteja totalmente sem direção e coesão.

A oposição que presenciamos nos últimos anos capitaneada pelo PSDB e DEM não tem gerado o efeito esperado, evidenciado no resultado das eleições dos últimos anos. A base aliada de Dilma conta com 402 deputados, contra os 380 do final do Governo Lula. A situação no Senado é a mesma. Da oposição de 33 senadores ao Governo Lula, hoje soma-se apenas 22 senadores oposicionistas. Os quadros, tanto da Câmara, quanto do Senado irão mudar com o surgimento do novo partido, o PSD. O desencontro é generalizado. Vemos um racha claro e escancarado para quem quiser ver, no PSDB. O que observo na sigla é uma briga particular na busca de interesse individual e o esquecimento das prioridades do partido e da busca por um Brasil melhor. No DEM ocorre uma verdadeira lipoaspiração em seu quadro, sofrida pelo PSD. Isso tudo fragiliza ainda mais a oposição que não consegue alinhar o seu discurso, nada fica claro. Até em votações ela diverge.

Voltando ao artigo de FHC, ele talvez tenha incomodado mais a oposição do que propriamente a base governista, com críticas que fez a Dilma. Penso que este é o objetivo principal. Para ele, a oposição calou-se a troco de liberação de emendas parlamentares destinadas as suas regiões, esquecendo-se de uma necessidade primária que é o posicionamento firme e contrário, como sempre fez o PT, e com isso “o Congresso foi perdendo relevância e poder”. E quem perde com isso? Nós, o povo brasileiro, pois com a perda da voz da oposição, a sociedade fica sem um contraponto no Congresso Nacional e praticamente todas as votações de interesse do Governo, serão ganhas, mas para isso não ocorrer sempre, a oposição preciso do apoio popular, e como terão apoio se suas vozes não são ouvidas? Ainda há oposição? Ser oposição é às vezes mudar discurso. Isso o PT fez muito bem e hoje surfa na crista da onda iniciada no Governo de Itamar Franco, firmada no período FHC. De fato não houve outro partido político que nos últimos anos conseguiu mudar tanto o seu discurso e ser aceito pelo povo quanto o PT. Enquanto estava na posição de esquerda era enfático nos discursos se opondo as ações do Governo, como na criação de programas assistencialistas, por exemplo. E hoje o Governo do PT se sustenta sobre esta política social, com programas rebatizados, implantada pelo Governo PSDB, e tudo isso é pregado sem que haja o posicionamento enérgico e discurso firme que relate a realidade e verdadeira origem da causa. Mas como, com esta oposição muda? Difícil. O preço pago pelo estado de mutismo é alto, visto as três conseguintes derrotas. Uma coisa fica claro, algo precisa mudar.

Talvez esta mudança seja exatamente aquilo apontado por FHC, e que foi o motivo de maior repercussão e polêmica entre a classe política e de analistas. O ponto chave de tamanha discussão, prisma sobre “definir o público a ser alcançado”. Segundo FHC, “enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os ‘movimentos sociais’ ou o ’povão’”, eles “falarão sozinhos”, com isso ele acredita que o mais importante neste momento é buscar aproximação com a “nova classe média”. Este apontamento é tido como quase esquizofrênico para alguns, como para Roberto Freire, PPS-SP: “não vejo na política quem abandone qualquer segmento da sociedade”. A respeito esta afirmação de Freire, eu diria: só se abandona aquilo que se tem. O “povão”, como nomeia FHC, “pertence” ao PT, pois estão bem aparelhados e satisfeitas com o que recebem do Governo. Eu não nomearia isto com um ”abandono”, mas sim como uma alteração na estratégia, no foco. O que o ex-presidente vislumbra é uma camada crescente e que já é a maior do país, a classe C. Analistas, como Gaudêncio Torquato, há bastante tempo vem chamando a atenção para esta camada social: “a classe média está solta. Sem partido. A base da pirâmide está satisfeita com os programas sociais. O meio da pirâmide, mais alargado, tem serviços públicos precários. Pede SOS”. As crescentes investidas do PSDB para seduzir a base da pirâmide têm sido frustradas, por esta razão é necessário urgentemente de uma guinada para o outro bordo, caso contrário “falarão sozinhos” e caminharão juntos, abraçados para mais uma derrota.

A verdade é que a partir deste artigo, espero que a oposição aja como deve, e saia deste posicionamento conservador e covarde que mantém atualmente. Uns o aplaudem, outros o criticam, mas de certo o objetivo buscado já fora alcançado: chacoalhou os acomodados e acordou os oposicionistas. Vamos torcer agora para que tenhamos aquilo que se espera da oposição, e torne o parlamento nacional mais atrativo e importante para o povo brasileiro.

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