O povo gosta de espetáculo

Tiririca andou meio esquecido pelos veículos de comunicações nos últimos meses, mas voltou à pauta após sua aparição em programas de seu partido, falando de nepotismo e educação, com o mesmo tom irreverente adotado na campanha e com isso resolvi fazer uma reflexão de sua campanha em 2010, e isso me fez lembrar de um outro caso inesquecível de nossa política contemporânea, o saudoso Enéas Carneiro, que reservei alguns comentário a cerca dele também.

Acredita-se que os expressivos índices de votos que estas duas figuras conseguiram foi resultado do desejo da população de protestar, pois é comum ouvir pessoas declararem sua aversão à política, mas o que todas não sabem é da importância que ela tem em suas vidas. Tudo o que as cercam tem participação direta ou indireta da política, seja no processo de produção ou no valor do bem adquirido. Tudo passa pela política e dela demanda o futuro de milhões de pessoas ao redor do mundo.

Acredita-se que parte desta depreciação se deve as famigeradas reportagens publicadas quase que diariamente envolvendo corrupção no meio político, isso mostra que a força da comunicação é incontestável, seja ela exercida pela imprensa ou até mesmo pelo próprio político, através de sua assessoria. Uns a chamam de “O quarto poder”, mas para o pesquisador Octavio Ianni “não se trata mais apenas do ‘quarto poder’”, para ele “trata-se de um desenvolvimento novo, intenso e generalizado, abrangente e predominante da mídia no âmbito de tudo o que se refere à política”. Ele segue dizendo que o poder da mídia é tão intenso que desafia nossos três poderes, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. E ainda vai além, ela interfere até nas relações dos partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais e corrente de opinião pública. Aqui entende-se que a portentosa evolução tecnológica dos meios de comunicação e sua corrente penetração na sociedade alteraram notoriamente a arena política mundial, criando-se um novo cenário. Ianni o chama de “o novo, imenso, complexo e difícil palco da política”, onde “as instituições ‘clássicas’ da política estão sendo desafiadas a remodelar-se, ou a ser substituídas”. As “instituições ‘clássicas’ da política” serão tratadas como sendo a própria figura do político, com isso, Ianni adverte os políticos a uma remodelação na maneira de se comunicar ou poderão perder as próximas eleições, ou seja, é preciso espetacularizar a política para ganhar a atenção da sociedade, claro que isso não é regra geral para ganhar uma eleição.

Esta espetacularização nos é revelada em seus mais diversos modelos. Em período de campanha, por exemplo, os programas eleitorais mais parecem programas de entretenimento do que propriamente eleitoral, onde se expõem ideias e projetos para uma eventual vitória nas urnas. Já no período pós-campanha, quando eleitos, se mostram ou se posicionam na mídia como verdadeiros astros. Isso leva a inferência de que a política atual é vítima do modelo criado pelos meios de comunicação: ou se expõe ou é esquecido.

Prova desta necessidade da espetacularização para o ganho de notoriedade são os dois deputados mais votados de toda a história política deste país, até o momento, o já falecido Enéas Carneiro e Francisco Everardo, o palhaço Tiririca. Estas duas figuras pitorescas são protagonistas de uns dos momentos mais “divertidos”, comentados e frívolos, que em nada acrescentava à política séria, que os horários eleitorais já viram. Um, ficou marcado por sua alta taxa de elocução e por seu já eternizado slogan pronunciado aos berros na televisão: “Meu nome é Enéas”, e que era fortalecido pelo seu aspecto caricato. O outro se consagrou zombando da própria política e pondo à prova sua capacidade de exercer um cargo eletivo, expresso no slogan: “Vote Tiririca: pior do que tá, não fica”. Francisco Everardo, escondido atrás de seu personagem, o palhaço Tiririca, foi o verdadeiro campeão de votos na proporcional das eleições 2010. Mas tudo não passava da espetacularização da política, neste caso pode ser acrescentado, ridicularização da política, como forma de obtenção de votos, nestes casos lamentavelmente vê-se uma verdadeira “despolitização” da campanha eleitoral. O povo gosta de espetáculo.

Enganam-se aqueles que acreditam que o sucesso da campanha de Tiririca foi coisa do acaso. Suas estratégias começaram a ser definidas em maio, com a realização de um grande briefing, com um questionário com mais de quatros páginas para melhor conhecer o candidato e então posicioná-lo. Desde então, relatórios eram feitos diariamente, entrevistas e treinamentos com cabos eleitorais, gravação de programas para o horário eleitoral, confecção de fantasias do personagem Tiririca para a equipe de campanha, montagem de comitês e envelopamentos de carros e ônibus, tudo para garantir o espetáculo. Durante a campanha, Tiririca contou com assessoria pessoal, jurídica, política, e de imprensa.

Após sua primeira aparição no horário eleitoral, a imprensa passou a acompanhar e a comentar de maneira ainda mais massiva, a sua campanha. Desde o início ela teve um tom de deboche, o que fez cair na graça do povo e desde então as visitas em seu site de campanha e perfis nos sites de redes sociais eram crescentes, gerando até interesses em eleitores de outros estados, que buscavam materiais de sua campanha, com isso a visibilidade de sua candidatura crescia a cada dia. O trabalho do marketing político foi fundamental para o sucesso atingido, pois fez de sua candidatura um verdadeiro espetáculo para os eleitores.

Talvez o povo ainda seja tão receptivo a estes tipos de candidaturas em decorrência da forte influência exercida pela comunicação de massa ao longo da formação do raciocínio crítico e ideológico das sociedades modernas, chamada de “Indústria Cultural”, por Theodor Adorno e Max Horkheimer. Para eles esta influência é tão grande que acabou por engessar o exercício da razão, deixando a sociedade “irracional apesar de toda racionalização”, ou seja, ela está mumificada e passiva aos modelos ofertados pela indústria cultural, onde tudo é entretenimento e espetacularização, pois a indústria cultural traduz “rigorosamente o mundo da percepção quotidiana” e isto “tornou-se a norma da produção”. E esta retratação pôde ser vista na forma em que foram apresentadas as duas candidaturas em discussão; um com discurso de mudança em reprovação aos políticos da época, com o diferencial caricato e o outro simplesmente ecoando o que muitos já diziam: “pior que tá, não fica”. Pode-se dizer que a vitória das duas candidaturas foi muita em função da instabilidade política e da descrença em quem a faz.

Os dois candidatos em questão, com o uso da indústria cultural, fizeram de suas campanhas verdadeiros shows aos olhos da sociedade e eles como agentes principais do espetáculo pareciam entender bem quando Guy Debord falou: “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”, sendo assim, a imagem intermedeia os laços sociais e como consequência vê-se o espetáculo. No caso das campanhas, o uso da imagem foi fundamental para vitória, tanto de suas figuras pessoas, quanto da utilização da imagem em movimento, possível através da televisão e internet, o que é indispensável para a espetacularização do momento. Ainda com base em Debord, o espetáculo cria uma nova realidade, um novo mundo, neste caso, o mundo da diversão, do deboche e da despolitização da política, porque praticamente ninguém mais acredita na seriedade dela, pois afinal, a sociedade gosta de espetáculo.

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4 respostas para O povo gosta de espetáculo

  1. Sandro Kuschnir disse:

    Caro Jefferson,

    Muito boa sua reflexão sobre os cases Enéas e Tiririca.Enquanto muitos acreditam que tudo foi por acaso voce elucida de maneira simples, combinada com os pnsamentos de grandes autores como Debord e Otavianni a estratégia que levou ao sucésso estes dois fenomenos da politica Brasileira.Quando este ano tive a oportunidade de assisitir o documentário “Beyond the citizen Kaine”‘ que fala sobre a espetacularizaçào da mídia,pude entender melhor estes fatos de nossa política.

  2. Eva Barbosa disse:

    Muito bom. Em poucos páginas está explicado o porquê de tão sério fenômeno.

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